sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ninguém tem nada com isso

Já disse Quintana: O pior dos nossos problemas é que ninguém tem nada com isso. Eu sempre enxerguei inúmeros significados para essa frase. Implícitos. Ela abrange muita coisa. Inclusive aborda os "limites" da solidariedade humana. Sim, ela existe. E eu a conheço bem de perto. Vejo muita gente solidária, que tem empatia pelo outro, pela dor alheia. Enfim, gente boa. Gente que se importa com os outros.
Mas ninguém vive a dor no lugar do outro. Ninguém. Cada dor é única, assim como as nossas digitais. Ninguém sente igual, sangra igual. Cada um tem sua intensidade e expressão próprias. É a identidade pessoal do sofrimento. E a isso não cabem julgamentos. Aliás, odeio os julgamentos, principalmente aqueles que são pré-formulados, com base em ambiguidades. Como o luto.
O luto é inexplicável para mim. O Aurélio diz tão pouco. Entre seus dizeres, havia "consternação". Não, não. É algo muito mais abrangente do que apenas a dor pela perda. Recruta consigo muitas outras coisas. Grandes, pequenas, imensuráveis. Coisas que se unem, que se separam. Coisas que dependem umas das outras, interligadas. Uma verdadeira rede.
E é tempo de luto pra mim. E luto sempre traz muitas lembranças, muitas coisas vêm à tona. Coisas esquecidas, coisas antigas. Aquelas bem do fundo do baú da alma. E junto com a usual tristeza, traz arrependimento para alguns, amarguras, abre feridas adormecidas. E de nada adianta. Não adianta remoer, especular, se debulhar em lágrimas ou até mesmo querer deixar de viver. Não traz de volta quem se foi. Apenas pode trazer um pouco de alívio à dor, mas sequer a extingue. Serve somente para atenuar o coração que chora (às vezes)...
Em mim, o luto tem um efeito de reclusão junto aos meus pensamentos. E eles divagam muito, mas sempre me pergunto sobre as verdadeiras razões da existência. É inevitável.
A única certeza é a morte. Mas ninguém compreende e nem aceita. Ninguém fica esperando alegremente. Ela é completamente "desacreditada". Ninguém quer vê-la. E na verdade, é sempre uma surpresa. Sempre. Ainda mais quando ela se repete em tão pouco tempo. Uma pena.

"E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu." *Eclesiastes 12:7*

7 comentários:

  1. Poxa, Dora, você teve mais uma perda? Sinto muito mesmo...
    Lendo o seu post, lembrei de uma música do Titãs que gosto muito: Epitáfio. "Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração".
    Beijos

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  2. Ms. Dora,

    Como leitor,
    apenas posso ler
    e disser,
    que concordei.

    A dor,
    é igual a morte.
    Inevitável.
    Apenas diferente,
    por ser abrangente.

    Um carinhoso cheiro!

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  3. Dora, que tempo triste. Mas depois da tempestade, deve aparecer a bonança, viu? Duas perdas tão próximas assim é sempre difícil. Fica bem, tá?
    BeijoO*

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  4. Ah Dora, sinto muito pela sua perda.
    E gostei muito da frase do começo, definiu muito bem o que é pior em nossos problemas. É realmente terrível pensar que ninguém tem mesmo nada a ver com eles.

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  5. Luto é dor e leva tempo pra passar. Cada ser humano tem fases na vida que são inevitáveis, a do luto, tem de se passar por ela. Nossa, como doi! Lembranças afloram, arrependimentos, como vc cita. Nessas horas de luto conhecemos bem quem são as pessoas. Mas ainda bem que tem aquelas que estão sempre te abrindo os braços, te afagando e falando palavras vindas de Deus, essas pessoas são os analgésicos que aliviam a dor do luto.

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  6. Meus pesâmes, querida! às vezes me pego pensando na morte, escrevi sobre ela hoje ... Sempre me 'embarga' os olhos lembrar da minah querida vozinha pro sua personalidade forte e alegria! E já faz cinco anos! É sempre bom ler-te bela, beijos cheirosos adorada,:

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  7. Desejando felicidade daqui pra você.
    Bjitos!

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